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Reforma trabalhista e a importância do Outplacement

Tendência é que demissões em massa ocorram com maior frequência
Jefferson Cabral Elias
Pixabay
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Há algum tempo as cenas de robôs operando em indústrias eram rotineiras em filmes de ficção científica e, no passado mais recente, eram vistas nas linhas de produção de grandes empresas, como montadoras de veículos e fabricantes de eletrodomésticos de grande porte.

O futuro chegou e enquanto no Brasil uma parcela da sociedade se apega a modelos ultrapassados de trabalho e às relações sindicais carcomidas – aqueles que se opuseram à recém-aprovada reforma trabalhista –, em outros países se investiu o mesmo tempo para o desenvolvimento de tecnologias que podem colocar em risco o próprio trabalho do homem.

Fala-se dos robôs colaborativos, máquinas desenvolvidas a um baixo custo para auxiliarem na produção de itens menores, como eletroeletrônicos, sapatos e roupas.

Ao lado dos robôs, a utilização maciça de big data e inteligência artificial substituirá o trabalho de diversas pessoas que se dedicam a atividades repetitivas e sem inputs criativos.

Uma evidência próxima repetida nos noticiários é a rápida movimentação da empresa Tesla para o desenvolvimento de veículos autônomos, façanha que poderá colocar em risco o trabalho de motoristas profissionais em breve. Outro caso já ocorre em São Paulo em uma das linhas de metrô que servem a cidade, cujos trens são operados sem atuação humana.

À medida que a tecnologia avança, seu custo é reduzido de forma proporcional, de modo que a velocidade da automação em detrimento do serviço humano será mais breve que o imaginado na virada do século. Eis o motivo pelo qual os reflexos na sociedade brasileira ganham contornos de preocupação.

Estima-se que 240.000 robôs industriais são vendidos anualmente, inclusive para o Brasil, número que cresce à taxa de 16% na última década. Para as empresas que já aderiram à tecnologia, os robôs substituíram diversos humanos em tarefas menores nas linhas de montagem.

Porém, a automação não tomará o emprego dos homens apenas na indústria. O setor de serviços também contará com grande automação nos próximos anos, sobretudo nas atividades repetitivas, segundo um estudo realizado pela Universidade de Oxford.

Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, os efeitos dessa transformação serão sentidos mais intensamente, pois um número grande de trabalhadores desenvolve atividades manuais e repetitivas, o que eleva o percentual de profissões que poderão desaparecer nos próximos anos.

De um lado, os dados mais pessimistas apontam que 49% dos empregos atuais no Brasil poderão ser substituídos pela automação, segundo uma pesquisa desenvolvida pela Consultoria McKinsey. De outro, pesquisadores da OCDE rebatem os números afirmando que somente algumas atividades serão automatizadas e não propriamente as profissões, sendo que o número de ocupações que deixarão de existir corre entre 6% e 12%.

Essas transformações dividirão o mercado de trabalho em dois extremos: as profissões com maior escolaridade e necessidade de habilidades socioemocionais (médicos, terapeutas e professores, por exemplo) e as profissões com menor escolaridade e repetição (faxineiros e pedreiros).

Mas, e o meio da pirâmide? Bem, as atividades de média escolaridade (operadores de máquinas) serão as maiores vítimas da automação, afetando a parcela da população que buscou certa qualificação para se descolar da base da pirâmide, porém, não o suficiente para exercer as funções mais qualificadas.

O resultado será o empobrecimento da massa de trabalhadores que não conseguir (re)qualificação para retornar ao mercado nas profissões que melhor remuneram, pois terão de aceitar os salários menores pagos para as profissões menos qualificadas.

Diante desses desafios, um número cada vez maior de empresas tem recorrido aos serviços de Outplacement.

Inicialmente destinado aos grandes executivos que eram dispensados pelas empresas, o Outplacement tem sido usado como uma ferramenta para reduzir os impactos da demissão de trabalhadores em grande número, seja em razão da atual crise econômica que assola o país, seja em razão da franca automação que vem ocorrendo em diversos setores da indústria e de serviços.

O processo consiste na humanização do traumático processo de demissão, passando pelo planejamento, exposição dos motivos da empresa, auxílio na reestruturação do currículo do profissional, fomento da rede de networking e a realização de treinamentos para viabilizar o retorno ao mercado de trabalho.

No setor de telemarketing e montagem de veículos, por exemplo, o fechamento de algumas empresas gerou a demissão de um grande número de trabalhadores, porém, houve grande movimentação por parte de movimentos sindicais para impedi-las.

Recentemente em São Paulo, sob grande protesto dos sindicados, houve muita discussão sobre a demissão em massa de cobradores de ônibus por conta da substituição de suas atividades pela utilização em escala dos meios eletrônicos de pagamento de tarifa.

Com a entrada em vigor das alterações da reforma trabalhista em novembro de 2017, as demissões em massa, que até então dependem da autorização dos sindicatos e obviamente não ocorrem com facilidade, passarão a ser decididas unicamente pelas empresas.

Com isso, sendo a automação um caminho sem volta, a tendência é que demissões em massa ocorram com maior frequência e que os serviços de Outplacement sejam cada vez mais requisitados.

Além de auxiliar o trabalhador no momento de desemprego, o Outplacement reflete positivamente no clima organizacional e na marca da empresa, reduz o número de ações trabalhistas, reforça o compromisso de responsabilidade social da companhia e valoriza seus ativos, o que muita agrada a investidores e acionistas.

Jefferson Cabral Elias - Advogado com atuação especializada em Direito do Trabalho e Sindical, autor de textos e palestrante em diversos eventos jurídicos. Graduado em Direito pela Universidade Mackenzie, Pós-graduado em Direito do Trabalho pela PUCSP, Pós-graduando em Direito Civil e Processo Civil pela Escola Paulista de Direito, Especializado em Gestão de Processo de Negócios pela UFRJ e Gestão de Relações Sindicais pela FGV-SP.

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