Justiça

Ex-dirigente da Odebrecht cita Temer e mais 50 em delação

“Boca Mole”, “Índio”, “Caranguejo” são alguns dos apelidos na lista de Mello Filho
Felipe Seligman
Márcio Falcão
Livia Scocuglia
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Ex-responsável pela área de Relações Institucionais da Odebrecht, maior empreiteira do país, Claudio Mello Filho citou em seu acordo de delação premiada mais de 50 políticos, entre governistas e oposicionistas.

No chamado anexo que contém os resumos do que será tratado na colaboração, Mello Filho promete relatar em detalhes aos investigadores sua relação com os principais integrantes da cúpula do PMDB, atingindo em cheio o núcleo duro do governo Michel Temer. Ele revela ainda apelidos usados pela companhia para identificar políticos (confira a lista abaixo) e mimos distribuídos, como relógios avaliados em R$ 85 mil.

Em trechos do acordo obtidos pelo JOTA, Mello Filho contou que foi acertado pagamento de R$ 10 milhões por Marcelo Odebrecht ao PMDB, em jantar no Palácio do Jaburu que teve em maio de 2014 com Temer e peemedebistas. Parte dos recursos foi entregue em dinheiro vivo no escritório de advocacia de José Yunes. Trechos dos anexos da colaboração do executivo foram revelados pelo site Buzzfeed.

Segundo ele, “claramente, o local escolhido para a reunião foi uma opção simbólica voltada a dar mais
peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião”.

O executivo disse que temas de interessa da empresa eram colocados a Temer, como quando entregou ao peemedebista uma nota sobre a atuação da companhia em Portugal, sendo que ele faria uma viagem institucional. “Esse exemplo deixa claro a espécie de contrapartida institucional esperada entre público e privado”.

Mello Filho afirmou ainda que parte dos recursos acertados para Temer foi destinado para Paulo Skaf que se candidatou ao governo de SP em 2014.

Em seu acordo, o executivo afirmou ainda que o ministro Eliseu Padilha, de codinome “primo” centralizava arrecadações para Temer, então candidato à reeleição à vice-presidente nas eleições de 2014. Segundo o ex-empresário, Padilha atua como verdadeiro “preposto de Michel Temer e deixa claro que muitas vezes fala em seu nome.”

“Esse papel de ‘arrecadador’ cabe primordialmente a Eliseu Padilha e, em menor escala, a Moreira Franco.”

De acordo com o delator, Padilha foi o representante escolhido por Temer que recebeu e endereçou os pagamentos realizados a pretexto de campanha solicitadas por Temer. “Este fato deixa claro seu peso político, principalmente quando observado pela ótica do valor do pagamento realizado, na ordem de R$ 4 milhões”.

Mello Filho também diz que foram destinados para a cúpula do PMDB do Senado mais de R$ 23 milhões, sendo que Romero Jucá centralizava a arrecadação, e envolve ainda o candidato do partido para a presidência do Senado, Eunício Oliveira, chamado de “índio” pela companhia. Ele afirmou que foram pagos R$2,1 milhões, a um preposto do senador, o  valor foi dividido em duas parcelas, sendo uma paga em Brasília e a outra em São Paulo. Os pagamentos foram realizados entre outubro de 2013 e janeiro de 2014.

Os acertos financeiros tinham como objetivo, além de estreitar relações, conseguir aprovar propostas de interesse da Odebrecht no Congresso, como mudanças em medidas provisórias, que tratavam de medidas de mudança de regime tributária e de concorrência, por exemplo.

O delator contou também que Marcelo Odebrecht pediu que transmitisse um recado para Michel Temer e que teria procurado Moreira Franco. “O recado foi que ele teria tido uma reunião com Maria das Graças Foster, ex-presidente da Petrobras e ela teria perguntado  expressamente a Marcelo Odebrecht quais pessoas do PMDB ele teria ajudado financeiramente na campanha eleitoral de 2010. Marcelo me disse que não respondeu a pergunta de Graça Foster, pois ‘não dizia respeito a ela a relação dele com o PMDB'”, disse.

“Marcelo me pediu pressa  na transmissão do recado. Sabendo da relação que ele mantinha com Michel Temer, procurei Moreira Franco e contei a ele o relato de Marcelo e, percebendo que era importante para Marcelo Odebrecht, pedi que ele transmitisse o quanto antes para Michel Temer”, completou.

O  atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, também é envolvido, sendo apontado que recebeu R$ 100 mil da Odebrecht para quitar dívidas de sua campanha à prefeitura do Rio de Janeiro. Maia é tratado pela empreiteira como “Botafogo”.

Os anexos das colaborações premiadas são apenas resumos do que o delator pretende entregar aos procuradores. As acusações passam a ter validade só depois que forem prestados os depoimentos que serão homologados pela Justiça.

Os políticos negam irregularidades e afirmam que recursos recebidos ou negociados com Odebrecht se tratam de doações eleitorais previstas em lei.

OUTRO LADO

Michel Temer nega as acusações de Claudio Mello Filho.  “O presidente Michel Temer repudia com veemência as falsas acusações do senhor Cláudio Melo Filho.  As doações feitas pela Construtora Odebrecht ao PMDB foram todas por transferência bancária e declaradas ao TSE. Não houve caixa 2, nem entrega em dinheiro a pedido do presidente.”

O senador Eunicio Oliveira (PMDB-CE) negou as acusações. “O senador nunca autorizou o uso de seu nome por terceiros e jamais recebeu recursos para a aprovação de projetos ou apresentação de emendas legislativas. A contribuição da Odebrecht, como as demais, fora recebidas e contabilizadas de acordo com a Lei. E as contas aprovadas pela Justiça eleitoral”.

O senador Romero Jucá negou as acusações em nota à imprensa. “O senador Romero Jucá desconhece a delação do senhor Claudio Melo Filho mas nega que recebesse recursos para o PMDB. O senador está  à disposição da justiça para prestar quaisquer esclarecimentos.”

O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha,afirmou que “não fui candidato em 2014! Nunca tratei de arrecadação para deputados ou para quem quer que seja. A acusação é uma mentira! Tenho certeza que no final isto restará comprovado.”

O presidente do Senado, Renan Calheiros, afirmou que “jamais credenciou, autorizou ou consentiu que terceiros falassem em seu nome em qualquer circunstância. Reitera ainda que é chance de se encontrar irregularidades em suas contas pessoais ou eleitorais e zero. O senador ressalta ainda que suas contas já são investigadas há 9 anos. Em quase uma década não se produziu uma prova contra o senador.”

O presidente nacional do DEM, senador Agripino Maia (RN) negou as acusações.  “Em 2014 sequer fui candidato. Desconheço e repilo os fatos citados”.

Confira alguns dos nomes que estão no anexo da colaboração:

CITADO APELIDO VERBA
1. Michel Temer R$ 10 milhões
2. Anderson Dornelles (ex-assessor de Dilma)  LAS VEGAS  R$ 350 mil
3. Antônio Brito (deputado)  MISERICÓRDIA  R$ 430 mil — parte dos recursos
foi para campanha do pai
4. Arthur Maia (deputado) TUCA R$ 600 mil 
5. Ciro Nogueira (senador) CERRADO // PIQUI  R$ 5 milhões p/ campanhas do PP 
6. Delcídio do Amaral (ex-senador)  FERRARI  R$ 550 mil 
7. Duarte Nogueira (prefeito) CORREDOR  R$ 600 mil 
8. Eduardo Cunha (ex-deputado) CARANGUEJO  R$ 7 milhões 
9. Eliseu Padilha (ministro )  PRIMO  Teria negociado recursos
para Temer
10. Eunício Oliveira (senador)  ÍNDIO  R$2,1 milhões
11. Geddel Vieira Lima (ex-ministro) BABEL R$ 1,5 milhão 
12. Gim Argello (ex-senador)  CAMPARI  R$ 1,5 milhão 
13. Inaldo Leitão (deputado) TODO FEIO  R$ 100 mil 
14. Jaques Wagner (ex-ministro) POLO  R$9,5 milhões
15. José Agripino (senador) GRIPADO  R$ 1 milhão solicitado
por Aécio Neves
16. Katia Abreu (senadora)  Teria acertado ajuda
financeira com Marcelo
17. Lúcio Vieira Lima (deputado)  BITELO Entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão
18. Marco Maia (deputado) GREMISTA R$ 1,3 milhão
19. Moreira Franco (secretário) ANGORÁ  Recursos para Temer 
20. Renan Calheiros (senador)   JUSTIÇA  Teria sido beneficiado por parte
dos R$ 22 milhões do PMDB
21. Rodrigo Maia (deputado)  BOTAFOGO  R$ 100 mil 
22. Romero Jucá (senador)  CAJU  Negociado para o
PMDB R$ 22 milhões 
23. ** Romário (senador)  Pedida contribuição p/
campanha, mas a empresa não fez
24. ** Bruno Araújo Relacionamento institucional,
sem pagamento
25. – Adolfo Viana JOVEM R$ 50 mil 
26. Lídice da Mata (senadora)  FEIA  R$ 200 mil 
27. Daniel Almeida (deputado) COMUNA  R$ 100 mil
28. Paulo Magalhães Júnior  GOLEIRO  R$ 50 mil 
29. Hugo Napoleão  DIPLOMATA  R$ 100 mil 
30. Jutahy Magalhães  MOLEZA  R$ 350 mil 
31. Francisco Dornelles (vice-governador RJ)  VELHINHO  R$ 200 mil 
32. Carlinhos Almeida  R$ 50 mil
33. João Almeida  R$ 500 mil 
34. Rui Costa (governador Bahia)  R$ 10 milhões 
35. Paulo Skaf  Teria sido beneficiado com R$ 6 mi
da verba acertada com Temer.

Felipe Seligman - De Boston

Márcio Falcão - De Brasília

Livia Scocuglia - De Brasília

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