Carreira

Carta a um jovem advogado previdenciarista

Nós lidamos com a verba alimentar do hoje e do futuro das pessoas e, por isso, dói quando se perde
Melissa Folmann
Pixabay
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Inicialmente deixo consignada a minha satisfação em colocar no papel o que falo aos meus alunos iniciantes no Direito Previdenciário. Mas aqui surge um problema, porque eu poderia adotar uma linha mais passional ou uma mais formal, a depender do leitor.

Na passional, poderia falar da minha rotina de, por exemplo, acordar às 6h para até as 7h ter lido todas as notícias jurídicas e não-jurídicas do dia e assim, por diante. Mas isso fica para uma outra oportunidade, já que optei por expor as lições que a vida de advogada previdenciária me proporcionou, e que tão válidas seriam se eu já as conhecesse nos idos de 2003.

Independente da fonte de qualquer estatística sobre a advocacia, todas apontam o Direito Previdenciário como uma das de maior crescimento e, concomitantemente, de vasto mercado. A maior prova disso reside no número de demandas previdenciárias sempre estar à frente nos relatórios do Conselho Nacional de Justiça.

Contudo, previdenciário continua fora do Exame de Ordem e da grade obrigatória da esmagadora maioria das faculdades. Então como adentrar nesta área tão convidativa? E mais, como se manter nela?

Dividirei minha resposta em dois momentos: no primeiro, os atributos que você deve ter; no segundo, o como fazer.

Perseverança é um atributo essencial para o advogado previdenciário. Todos os dias você irá se deparar com comentários de senso comum desmerecendo o previdenciarista, como por exemplo: “previdenciário é fácil” ou “só usar um modelinho que resolve”. Sim, nós ainda estamos construindo o respeito pela advocacia previdenciária e, você, colega, fará parte desta história. Seja muito bem-vindo.

Disso, decorre o segundo elemento: estudar diariamente sem ceder ao canto da sereia chamada “modelos”. Aqui reside a diferença entre o estar e o permanecer no Direito Previdenciário. A prática lhe demonstrará o quanto o senso comum está equivocado ao desconhecer a complexidade deste ramo do Direito tão caro ao cidadão. Exercer a advocacia previdenciária implica em conhecer outras áreas do Direito, como: constitucional, administrativo, tributário, processo civil, família e internacional. E, assim, “pensar fora da caixinha” em que estão presos os adeptos dos modelos. Eis, um grande segredo do sucesso: seja curioso, desconfie sempre do que sabe e deseje sempre construir por suas próprias pernas, senão ficará dependente de terceiros e não crescerá.

Resiliência. O mundo não é cor de rosa, muito menos a advocacia previdenciária. Você irá vencer muitas batalhas, perderá outras e sentirá uma responsabilidade imensa por causa destas. Perder também é um aprendizado, nos permite não cometer mais o mesmo erro, portanto perder poderia até não te afetar tanto, não fosse uma questão: o previdenciarista lida com a verba alimentar do hoje e do futuro das pessoas, e por isso dói, dói muito quando se perde. Mas se você for responsável em sua advocacia, a frustração será bem menor e lhe servirá de estímulo para se preparar ainda mais em direção à próxima batalha.

Humanidade. O previdenciarista precisa ver o próximo não como um cifrão, mas como alguém que confia seu presente e seu futuro ao advogado. Portanto, você precisa conversar com seu cliente, ele precisa ser ouvido, porque ninguém conhece a realidade dele melhor do que ele mesmo.

Atendidos os pressupostos acima, cumpre-nos falar sobre como iniciar no Direito Previdenciário e como se manter neste ramo.

Primeiro: estude. Escolha bons cursos de capacitação, de pós-graduação e, consequentemente boa doutrina. A definição do que é bom ou não depende de você falar com outros colegas que fizeram o curso e obter deles a resposta à seguinte pergunta: ensinaram a pensar em teses ou forneceram modelos? Lembre-se de sempre fazer cursos de capacitação em áreas afins e não só no Direito Previdenciário. Eu mesma faço no mínimo 3 cursos por ano em áreas afins. O último que fiz foi sobre o E-Social, pois conhecer Direito Tributário é 50% do caminho para o sucesso no Direito Previdenciário. E, jamais deixe de assistir sustentações orais dos colegas, já que você tem acesso a uma escola gratuita que lhe manterá sempre atualizado com a jurisprudência. Pense assim: se não tenho cliente para atender, nem trabalho para fazer – celular não é uma opção do advogado de sucesso – este caminhará para os tribunais ou abrirá um link para assistir sustentações orais.

Segundo: visão. Não se feche, sempre olhe o futuro. Por isso, não se especialize em Direito Previdenciário voltado exclusivamente para o INSS. Pense “fora da caixinha” e verá que o mercado está sedento por previdenciaristas conhecedores de: regime próprio dos servidores públicos, previdência complementar, previdência internacional, planejamento previdenciário e, especialmente, Direito Previdenciário Empresarial.

Terceiro: networking. Participe de Comissões da OAB e de entidades técnicas, de eventos, seminários, congressos, grupos de discussão. Seja visto e será lembrado.

Quarto: gestão. Lembre-se que um escritório de advocacia, independentemente do porte, é uma empresa. Portanto, organização é elementar para o sucesso. O cliente não lhe contrata para você ficar perdendo tempo em procurar uma pasta ou um arquivo, mas para você atendê-lo e exercer a advocacia. Se você já começar com uma boa gestão, terá mais tempo para seus clientes e processos.

Quinto: equipe. O sucesso não brota ou mesmo se constrói sozinho, forme uma equipe e os incite a sempre serem melhores, porque você crescerá. O conformismo é o primeiro passo para o declínio.

Sexto: compartilhe conhecimento. A advocacia não se fortalece nas individualidades, mas no compartilhar conhecimento. Não tenha medo da concorrência, sob pena de ela nem o considerar como tal, tendo em vista a sua defasagem. Assim, sempre que puder, converse com os colegas e se permita a aprender e ensinar. Seja um eterno aprendiz e isto significa: esteja aberto ao diálogo, não desmereça seu interlocutor, não deseje sempre ter razão, almeje aprender e seus clientes e colegas lhe ensinarão muito.

Sétimo: escreva. Não deixe de escrever um dia sequer. A advocacia exige redação, a qual só se aprimora com o exercício.

Enfim, desejo-lhe todo sucesso do mundo nesta apaixonante área do direito, e que você tenha sempre em mente a frase de um autor desconhecido, mas muito orientadora do futuro: “O único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário”.

Melissa Folmann - Advogada. Profissional certificada pelo ICSS - Instituto de Certificação dos Profissionais de Seguridade Social. Diretora científica do IBDP – Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário. Diretora da Comissão de Direito Previdenciário do IBDFAM – Instituto Brasileiro de Direito de Família. Membro do Conselho Deliberativo da OABPREV/PR. Conselheira da OAB/PR. Membro do IAP - Instituto dos Advogados do Paraná. Professora da ESMAFE/PR (Escola da Magistratura Federal do Paraná), da ESMAFE/RS (Escola da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul) e da graduação e pós-graduação da PUCPR. Mestre em Direito pela PUCPR. Coordenadora da Revista Brasileira de Direito Previdenciário da LexMagister. Membro Honorário do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação). Associada Benemérita do IBDP - Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário

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