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A última lição de Bauman

Obra representa o olhar crítico e plural sobre a atualidade de um judeu que lutou na 2ª Guerra
José Ribas Vieira
Mario Cesar Andrade
Foto: Divulgação/Zahar
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A notícia da morte do sociólogo polonês Zygmunt Bauman soou inesperada, apesar de seus 91 anos, talvez, por ainda estar em plena atividade, a despeito da idade avançada. Sua crítica à sociedade contemporânea, individualista e relativista, popularizou-se através do conceito de “modernidade líquida”, expressão que se difundiu para além dos círculos sociológicos ou mesmo acadêmicos. A ideia de “liquidez” transformou-se no fio condutor de seu pensamento, designando um cenário em que todos os tradicionais parâmetros da sociabilidade perderam sua fixidez, um mundo de incertezas, em que os padrões e regras que orientavam as relações humanas perderam sua estabilidade diretiva. Sob o discurso da liberdade individual, os conceitos de Nação, família, cidadania e moral diluíram-se em uma sociedade em que não há pontos de referência que assegurem a identidade coletiva. A esfera pública foi transformada em um local incolor, em que todos os valores estão a serviço de interesses privados. “Líquido” passou a designar o mundo em que todos os parâmetros da vida social tornaram-se fluidos, onde tudo é incerto e instável[1].

Porém, não se pode dizer que a singular popularidade de Bauman tenha sido ocasional. Ele produziu massivamente para a difusão de seu pensamento, publicando de um a três livros por ano. Suas obras, em geral, sucintas e diretas, abordavam os principais temas da atualidade, sem incorrer na linguagem academicista, comum às publicações científicas. Bauman buscou, deliberadamente, não escrever para a comunidade acadêmica, mas para o público em geral, produzindo uma rica bibliografia em que são discutidas, em uma redação acessível, as questões e impasses da sociedade “em derretimento”[2] .

Em sua última obra, Strangers at our door[3], lançada em maio de 2016, Bauman aborda um dos grandes problemas internacionais da atualidade: a crise migratória de refugiados, em especial, na Europa. Nesse livro, Bauman contribui para a análise crítica e plural do tema. Ele identifica, nas sociedades europeias que receberam grande número de migrantes, o desenvolvimento de um moral panic, marcado pela disseminação da sensação difusa de que o equilíbrio social está ameaçado. O autor valeu-se do conceito de pânico moral, presente na obra do sociólogo Stanley Cohen (1942-2013), especialmente em Folk devils and moral panics: The creation of the Mods and Rockers (1972). Para Bauman, os europeus veem os refugiados não somente como estrangeiros, mas como estranhos. O grande número de imigrantes desalojados, pobres, famintos e com matrizes culturais muito diversas da europeia tem gerado nos países de destino uma sensação de estranheza e um temor difuso. A Europa estaria sob a crescente sensação de ameaça aos seus referenciais culturais, aos padrões civilizatórios da cristandade ocidental e às respectivas identidades nacionais. Os refugiados, em sua maioria muçulmanos, além de encargos socioeconômicos, são percebidos como uma ameaça ao modus vivendi europeu.

O grande contingente de migrantes estaria comprometendo a crença europeia em uma homogeneidade nacional. Nesse ponto, Bauman está denunciando a persistência cultural do pensamento do constitucionalista alemão Carl Schmitt (1888-1985), contido em obras como Teologia Política e o Conceito do Político, em que povo é conceituado como uma comunidade de destino, que se diferencia dos demais povos exatamente por sua homogeneidade política interna. Esse é o fundamento do conceito étnico-cultural de cidadão, defendido por Schmitt e que parece estar no inconsciente coletivo europeu, explicando a estranheza e ameaça “sentidas” diante dos refugiados muçulmanos. Reforçando esse clima de ameaça, o fundamentalismo terrorista, alegadamente islâmico, tem nutrido o discurso de “securitização” como forma de combater a “invasão muçulmana”, encontrando repercussão nas pautas de agentes políticos e da grande mídia. Nesse sentido, a obra foca no avanço do discurso de securitização no contexto político europeu, com destaque para o fortalecimento da extrema direita francesa de Marine Le Pen, que tem na oposição à imigração uma de suas bandeiras mais populares.

Para Bauman, o discurso de securitização seria uma estratégia para aliviar a responsabilidade pessoal e coletiva pelo cenário internacional, além de gerar nos nacionais a gratidão pela defesa de seus valores culturais e de sua segurança. Strangers at our door está intimamente relacionado a outra obra do autor, Medo líquido[4], na qual a contemporânea sensação de medo constitui um ser inseguro, que busca proteção através de meios sempre externos, como equipamentos eletrônicos e políticas públicas repressivas de segurança.

Bauman desenvolve uma crítica profundamente humanista da crise migratória. “Humanity is in crisis – and there is no exit from that crisis other than solidarity of humans.” (p. 19). Toda a humanidade deve assumir sua responsabilidade política, social e humanitária para com os refugiados. Recorrendo ao projeto kantiano de paz perpétua, ele defende um princípio universal de mútua hospitalidade, cujo imperativo ultrapassaria as diferenças culturais e fronteiras territoriais, demandando a construção de uma sociedade eticamente internacionalizada pela solidariedade. A assunção da responsabilidade pela tragédia humanitária dos refugiados seria, portanto, um imperativo ético.

A raiz moral da avaliação de Bauman evidencia sua filiação à Kant e ao filósofo francês Emmanuel Lévinas, com sua ética da responsabilidade pelo Outro. Bauman defende que o refugiado seja compreendido, não como um estranho, mas como nosso Outro, pelo qual somos responsáveis. Mais uma vez, é perceptível a perspectiva moral como traço marcante da abordagem do autor, que nunca se limitou a análises sociológicas compreensivas baseadas em dados estatísticos. Por outro lado, suas propostas parecem ser demasiadamente normativas, idealistas, ou mesmo utópicas. Porém, ele não via outra saída para a crise da humanidade que não passe pela assunção pessoal e coletiva de responsabilidades. O diálogo se apresentaria como a única alternativa de desconstrução e superação do medo de colapso do modus vivendi, de descobrir no outro desconhecido nossa humanidade comum.

A última obra publicada por Bauman é mais do que um diálogo com pensadores como Kant, Hannah Arendt, Agamben, Erving Goffman, Gadamer, Shauer, Larry Solum e Lévinas, entre tantos outros, ela representa o olhar crítico e plural sobre a atualidade de um judeu polonês que viveu e lutou na Segunda Guerra Mundial. Strangers at our door é a última lição em vida de um pensador ativo e atento aos problemas de seu tempo, e que não esqueceu sua experiência como refugiado e estrangeiro/estranho desterrado, mas é também o alerta de como uma sociedade carente de valores éticos coletivamente compartilhados pode tentar recuperar a “solidez” perdida por meio de discursos discriminatórios e desumanizantes.    

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[1] Entrevista com Zygmunt Bauman. Observatório da Imprensa. p. 16/10/2015
[2]  BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
[3] BAUMAN, Zygmunt. Strangers at our door. Male, MA: Polity, 2016.
[4] BAUMAN, Zygmunt. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

José Ribas Vieira - Professor Titular de Direito da UFRJ. Pesquisador-coordenador do OJB-UFRJ

Mario Cesar Andrade - Pesquisador do OJB-UFRJ

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