Advocacia

Ronaldo Veirano, 77 anos, ainda longe da aposentadoria

Nos 45 anos do escritório, sócio-fundador traça histórico de sua trajetória profissional
Ronaldo Veirano, sócio-fundador do Veirano Advogados Divulgação
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Aos 77 anos, Ronaldo Veirano, sócio-fundador de um dos dez maiores escritórios de advocacia do país, não quer nem pensar em aposentadoria. Ainda hoje trabalha de dez a doze horas por dia, sendo que a maior parte de seu tempo é dedicada à prospecção de futuros clientes para o Veirano Advogados.

A banca, que começou como um braço do escritório americano Baker & McKenzie no Brasil, completa 45 anos de existência em 2017 com um faturamento anual de aproximadamente de R$ 220 milhões.

Segundo Veirano, um dos períodos mais difíceis da banca foi justamente quando ele decidiu se separar dos sócios americanos, em 1996. “Foi como um divórcio”, diz Ronaldo Veirano. “Apesar de ter 56 anos e de ser um advogado bastante experiente, quando ia para o exterior tentar captar trabalhos, ninguém me conhecia”, conta.

Apesar das dificuldades iniciais, os números demonstram que a “separação” fez bem para os negócios. Em 1996, havia 25 pessoas no escritório, dos quais quatro ou cinco eram sócios. Hoje, o Veirano conta com 240 advogados, dos quais 56 são sócios, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Porto Alegre e em Brasília.

Apesar de dizer que o número de advogados não representa muito coisa — o indicador mais importante seria a qualidade dos profissionais –, Veirano acredita que o Brasil tem possibilidade de ter escritórios muito maiores do que os que existem hoje, como já acontece em nações mais pobres e com população mais diminuta.

Sobre a carreira de advogado, Veirano a considera “muito sacrificante em termos de tempo”. “Eu não vi meus filhos crescerem. Eles nunca reclamaram, mas devem ter uma certa mágoa por eu não ter dado tanta atenção”, afirma. Por outro lado, considera a profissão “abençoada” porque traz boas oportunidades tanto quanto a economia está bem, quanto quando está mal.”

Ronaldo Veirano recebeu a reportagem do JOTA em seu escritório de São Paulo para falar sobre os 45 anos da banca. Ao longo de uma hora e meia de conversa, também falou sobre o que considera ser a receita do sucesso de um escritório, relembrou uma conversa antiga com o fundador do Pinheiro Neto e falou sobre as mudanças na profissão ao longo do tempo.

Confira a entrevista.

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Quando o senhor criou o escritório, imaginava que ele chegaria a ser um dos dez maiores do país?
Nunca sonhei que pudéssemos chegar neste patamar. Sempre pensei grande, mas não neste nível e com tantos anos de existência. Mas o país tem oportunidades enormes, apesar de todos os nossos problemas e vicissitudes econômicas e políticas. O Brasil tem campo para ter escritórios muito maiores. Existem países com PIB e população menores que os nossos que têm bancas maiores que as nossas. Acho que estamos caminhando para isso. Hoje somos 240 advogados, com 56 sócios, no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Porto Alegre e em Brasília. Já estivemos no Nordeste, em Recife e Fortaleza, mas decidimos fechar os escritórios e nos concentrar no Sudeste.

Por quê?
Encontramos dificuldade de transferir sócios com certa senioridade para o Nordeste. Conseguimos pessoas mais jovens apenas. Descobrimos também que lá é um Brasil muito diferente. Não imaginávamos que a diferença fosse tanta, mesmo no Judiciário. A cultura do empresário ao contratar o advogado, as relações nas cidades, tem que ter gente muito bem relacionada senão as coisas não caminham. Então achamos melhor usar correspondentes localizados nessas cidades.

A que fatores o senhor atribui o fato de o Veirano estar entre as dez maiores bancas?
Acho que em primeiro lugar foi a nossa preocupação sempre muito grande com qualidade. Ter 240 advogados, 150, não quer dizer coisa nenhuma. O que importa é a qualidade dos integrantes. A gente tem qualidade e hoje é reconhecido como um escritório que não só tem qualidade, como também é extremamente ético. A combinação desses dois fatores foi muito importante para o nosso crescimento. A nossa profissão você passa a vida toda construindo uma reputação e tem que ter muito cuidado para que ela não seja maculada porque é muito fácil cometer um engano que pode trazer consequências de eliminar todo o esforço feito anteriormente. A qualidade do serviço é outro fator fundamental. Agora, também acho que contamos com a sorte porque senão você não vai para frente. Eu me considero uma pessoa sortuda neste sentido. O fato de gostar do que faço ajuda muito a trabalhar com paixão. E isso é necessário para as coisas darem certo.

No início do ano, o Ministério Público Federal disse que uma auditoria do Veirano e da EY, contratada pela Eldorado Celulose, tinha o “o único propósito de encobrir os reais motivos que ensejaram o pagamento de grande numerário, no valor de R$ 37,4 milhões de reais, da Eldorado para as empresas de Lúcio Funaro (Viscaya e Araguaia)”. Foi um momento difícil?
Não foi uma grande crise, mas foi uma grande decepção a maneira como o assunto foi tratado. Temos plena consciência de que fizemos o melhor possível, mas acho que fomos, de certa forma, envolvidos por circunstâncias fora do nosso controle. Fomos contratados com um escopo de trabalho muito limitado, fizemos isso em conjunto com a EY. Nós não tivemos acesso a mais informações que foram pedidas à empresa e apontamos que não poderíamos chegar a uma conclusão se havia ou não irregularidade por falta das informações e, então, recomendávamos que fosse aprofundado o estudo. Na reunião do conselho em que foi apresentado nosso relatório final, não iríamos fornecer cópias do parecer.  Mas, um dos conselheiros insistiu muito e os outros então concordaram que as cópias deveriam ser fornecidas, mas que todos deveriam devolver o relatório ao final da reunião. Mas, um deles, representando um fundo de pensão, pega a cópia dele, sai, se tranca no banheiro e vaza para o MPF. Graças a Deus, o MPF não fez nenhuma carga contra o escritório, mas o assunto vazou para imprensa e a impressão que ficou foi que haveria um conluio com os donos da JBS.

Os fatos seguem, a vida continua e agora a JBS está nesta confusão toda. Apareceu um monte de evidências que eles andaram sonegando informações ao MPF, a outras pessoas e inclusive a nós. Como eu lhe disse, ficou um gosto amargo porque as pessoas leem isso no jornal, mas temos no mercado uma reputação de ser uma firma séria e não houve um impacto maior. Obviamente isso preocupa porque você zela tanto pela reputação do escritório e é decepcionante você ver o seu nome, de certa, forma achincalhado. Às vezes acontece alguma coisa com um concorrente nosso e alguém faz um comentário negativo. Eu sempre digo: “tome cuidado com o que você está dizendo”. Primeiro, porque as informações que tivemos acesso vieram pela imprensa e não sabemos se é verdade ou não. Ponha-se no lugar do nosso concorrente. Se tivessem feito isso com a gente e soubéssemos que não era verdade, ficaríamos indignados. Agora, infelizmente, há concorrentes que usam essas informações para dizer, de forma sub-reptícia: “ó, o escritório Veirano não é muito ético porque está envolvido lá com o caso Eldorado”. Mas isso não dá para evitar. Se você for se preocupar com o que os outros pensam de você, você acaba não vivendo. Tem que fazer um bom trabalho e ter a consciência tranquila de que fez o melhor possível. Acho que a gente não avaliou suficiente bem o tipo de pessoa com o qual estávamos lidando.

Por que o senhor quis montar um escritório full service?
Havia poucos escritórios assim na época. O Pinheiro Neto foi o pioneiro neste tipo de atividade. O velho Pinheiro realmente foi um desbravador e criou um paradigma de escritório de advocacia voltado para a área internacional. Eu achava que o Brasil, com o desenvolvimento econômico de sua indústria e comércio iria precisar de mais escritórios assim. No meu tempo de faculdade, os escritórios eram primordialmente familiares, de porte pequeno e muito especializados em determinadas áreas. Realmente, com o final da Segunda Guerra Mundial é que começou esse movimento de os escritórios abrangerem várias áreas. Hoje, os clientes procuram um escritório que possa te atender de maneira ampla.

Nesses 45 anos, que mudanças o senhor apontaria do Direito brasileiro?
Uma é o grau de sofisticação e especialização dos profissionais. Antigamente os advogados eram mais generalistas, com uma tendência para determinada área. O espaço para profissionais assim está diminuindo cada vez mais na minha opinião. A concorrência hoje é muito maior. Eu digo para os jovens do escritório que dou graças a Deus por não estar concorrendo com eles, que saem da faculdade muito mais preparados e acabam se especializando em determinada área, sendo muito melhores nela do que os da minha geração foram. A concorrência estrangeira também nos obriga a essa especialização e nos faz melhorar. Os tribunais e juízes também melhoraram muito nesse período. Já o processo eletrônico foi uma mudança fundamental para agilizar a Justiça. O dito que a Justiça tardia não é Justiça é uma grande verdade.

O senhor consegue relacionar os períodos econômicos do Brasil à expansão do escritório?
Costumo dizer que nossa profissão é abençoada porque temos trabalho quando as coisas vão bem e quando vão mal. Quando o país está num ciclo de crescimento você tem uma demanda maior por parte dos clientes e o crescimento é mais rápido. O Collor fez uma abertura das importações e abriram-se novas oportunidades, principalmente na parte do Direito Fiscal, no Direito Aduaneiro, e também houve uma maior demanda por trabalhos grandes com aquisições e fusões. O Brasil estava crescendo. Já no governo Fernando Henrique Cardoso houve a época das privatizações, que foi uma boa oportunidade para todas as bancas. Nós e nossos concorrentes crescemos muito nessa época porque as demandas por serviços jurídicos, especialmente nas áreas financeiras, de energia, gás e petróleo criaram um campo fantástico. Quanto mais você contratava, mais trabalho você tinha.

Com o governo Lula, o mundo e o Brasil estavam passando por um período de estabilidade político e econômica, com possibilidade de dinheiro farto para financiamentos e investimentos. E o Lula, com todos seus defeitos e qualidades, conseguiu fazer com que o país crescesse. Surgiram oportunidades na área de M&A porque as pessoas viam o Brasil como um país emergente que estava muito próximo de se tornar um país desenvolvido. Já no governo Dilma, nós passamos a ter uma série de problemas que mudou a ênfase da demanda jurídica, mas a parte de reestruturação financeira e o compliance passaram a ir muito bem.

Penal econômico também, não?
Eu me lembro que aqui no escritório, quando a gente discutiu a contratação de um advogado criminal eu fui completamente contrário. Pessoas da minha geração faziam a ideia de que o criminalista era quase como aquele advogado porta de cadeia. Isso foi há uns cinco, sete anos.  Nós contratamos um advogado criminalista pouco antes de começarem estes escândalos. O escritório acabou se antecipando e eu tive que dar a mão à palmatória de que meus sócios tomaram a decisão correta. Hoje é uma área que cresce bastante no escritório. Você precisa tentar se antecipar aos acontecimentos porque se for reagir a alguma coisa, já estará correndo atrás do prejuízo.

E atualmente? Quais são as áreas que mais crescem desde o governo Temer?
Mesmo num governo difícil, num período difícil, o preço dos ativos caiu e com isso há uma procura muito grande por parte de pessoas lá fora e mesmo daqui de dentro que têm capital e certo apetite para risco e que estão apostando que o Brasil vai voltar a crescer. Eu tenho certeza que vai. Esse tipo de investidor nos dá muito trabalho, nas áreas mais variadas possíveis. As aquisições estão acontecendo nas áreas de gás e petróleo, farmacêutica, energia. Tem muita gente comprando essas empresas porque os preços estão lá embaixo. Recentemente assessoramos a compra da CPFL pelos chineses [no valor de R$ 14,2 bilhões, a maior operação de M&A em 2017]. A China vai se tornar rapidamente o maior investidor estrangeiro no Brasil.

E para o próximo ano?
Estamos apostando na área de gás e petróleo, tanto que fizemos uma contratação importante. Sentimos que com os novos leilões que a Petrobras vai fazer vai haver mais necessidade de trabalho nessa área. O principal no mercado é você ter a oportunidade de contratar gente boa. Digo com muita frequência aqui que se eu tive algum mérito na construção do escritório foi me cercar de gente melhor do que eu. Se você se cerca de gente pior que você, o pessoal te puxa pra baixo. Se tem pessoas boas ao seu lado, você precisa deixá-las crescer e se desenvolver porque crescerá junto.

Como é a sua rotina aos 77 anos?
É muito parecida à de quando eu tinha bem menos idade. Desde quando era garoto sempre quis ser advogado, nunca tive dúvida sobre qual profissão escolher e eu continuo muito ativo. Uma das maneiras de nos mantermos atualizado e jovem é trabalhando. Isso aqui, para mim, é minha vida. Eu continuo trabalhando muito, dez, doze horas por dia. Chego 9h30, 10h e saio 20h30, 21h. E gosto do que eu faço. Um dos segredos na vida para você ser feliz é fazer o que você gosta. Em qualquer profissão. Deve ser horrível você trabalhar numa profissão em que não se sinta bem. Nem cogito a aposentadoria. Seria para mim um problema muito grande. Não sei fazer qualquer outra coisa. Enquanto eu me sentir útil e contribuindo em alguma coisa para o escritório, acho que vão me aceitar por aqui.

Por que o senhor sempre quis ser advogado?
Eu sempre gostei de letras, de discussões, argumentações e sempre tive interesse em seguir a advocacia. Meu pai não era advogado e eu não tinha nenhum advogado na família. Ele gostava da parte trabalhista, mas nunca se formou. Talvez eu tenha seguido o Direito por causa da afinidade que tinha com ele. Eu sempre sonhei em ter um escritório com atuação nacional. Eu me juntei inicialmente a um grupo internacional, em que fiquei durante 25 anos, depois de ir para os Estados Unidos trabalhar e estudar. Saí em 1996 por diferenças de opiniões de como desenvolver os negócios. Tínhamos dois escritórios da mesma firma entre Rio de Janeiro e São Paulo, mas dois centros de lucratividade separados que geravam muita competitividade entre os sócios. Saí, fundamos o escritório em São Paulo e aí o escritório deu um desenvolvimento muito grande em grande parte ajudado pelo que aconteceu no Brasil, na época das privatizações.

Por que o senhor decidiu estudar novamente Direito nos Estados Unidos?
Eu me formei em 1963 e em 1966 tive o convite para trabalhar num departamento jurídico de uma empresa americana. Mas condicionei esse convite à possibilidade de estudar. Meu chefe respondeu que teria de ser de noite – então, estudei no período noturno, em que a duração do curso aumenta de três para quatro anos. Foi bem mais difícil do que eu imaginava. Tendo me formado no Brasil, achava que tiraria de letra, mas o sistema educacional é muito diferente. As aulas não são com um professor fazendo uma dissertação sobre o Direito. Você tem que ler muitos casos e pelo método dedutivo apreender os conceitos. A quantidade de material para ler é muito grande. No primeiro ano tomei um susto, mas depois me acostumei. Foi uma experiência espetacular.

O senhor tem a habilitação na American Bar Association [similar à OAB nos Estados Unidos]?
Sim, no estado de Illinois. A inscrição nos Estados Unidos é estadual e só tinha um estado que permitia a um estrangeiro se tornar membro da Ordem – justamente Illinois. Os outros exigiam a cidadania americana porque achavam que a situação do estrangeiro era incompatível com a prática do Direito. Isso mudou quando a Suprema Corte Americana decidiu que era inconstitucional exigir cidadania para a prática de uma profissão.

A OAB há alguns anos limitou a atuação dos advogados estrangeiros. Hoje seria possível fazer o que o senhor fez na década de 70 e abrir uma representação de um escritório americano no país?
Hoje seria bem mais difícil. O Baker & McKenzie abriu uma representação em São Paulo muito antes de eu me juntar a eles – em 1957. Durante muitos anos foram os únicos estrangeiros a operar no Brasil. Quando veio essa regulamentação que a rigor deveria se aplicar a eles, foi feita uma exceção. Eles têm um status diferentes dos demais. Os escritórios que tentam fazer esse tipo de associação têm problemas com a Ordem.

E o senhor concorda com a restrição?
Essa restrição é artificial. Primeiro, acho que não prejudica em nada os escritórios brasileiros, pelo contrário, ajuda. Se você conversar com meus concorrentes, acredito que vá encontrar opiniões diferentes da minha. A advocacia como muitas atividades no mundo hoje está globalizada e mais cedo ou mais tarde essas barreiras vão ter de cair. Eu digo aqui para o meu pessoal que em vez de tentar se insurgir contra os estrangeiros, o que temos de fazer é nos preparar para concorrer com eles. E hoje temos as condições de fazer isso com bastante competência. Eles fazem coisas melhores que a gente, como a estrutura financeira que assusta um pouco o brasileiro, mas também fazemos coisas melhores que eles. No início talvez você tenha um certo desequilíbrio, mas eles não vão investir o que precisariam para concorrer com os grandes escritórios brasileiros. Eles preferem atuar em determinados nichos, como mercado de capitais, área financeira, energia, então eles vão acabar ficando circunscritos. Mas isso é uma opinião pessoal minha.

Qual conselho o senhor daria para um estudante de Direito hoje?
Acho que o importante é o comprometimento, o preparo profissional, ter feito uma boa faculdade e ter um certo plano para o futuro. Nós aqui oferecemos diversas oportunidades de bolsas de estudos para os jovens. Tentamos colocá-los em escritórios estrangeiros por um período.

Hoje temos mais de 1 milhão de advogados no país e mais de 800 mil estudantes de Direito. O senhor vê espaço para um jovem recém-formado abrir um escritório logo depois de formado numa capital?
É muito difícil. A gente sente isso em relação a algumas pessoas que resolvem sair do escritório e formar sua própria boutique. Muitas vezes já tivemos advogados que saíram para fazer essa experiência e acabaram voltando. Eu, antigamente, ficava muito aborrecido quando as pessoas saíam do escritório. Achava que era um desaforo, porque para mim é melhor lugar do mundo para trabalhar. Mas, quando você vai ficando mais velho, você percebe que as pessoas têm lá suas ambições, seus sonhos e que às vezes o escritório não estava correspondendo. Ninguém sai quando está plenamente satisfeito. Então, eu digo para esses rapazes e moças que querem se meter em aventuras que eles estão no melhor momento da vida para fazer isso e estão em uma posição muito privilegiada: porque se não der certo e quiserem voltar, vamos receber de braços abertos. Alguns voltaram, outros continuam batalhando. Mas é muito difícil. A concorrência é muito dura. Para atrair determinada qualidade de trabalho, você não consegue sozinho. Você tem de ser muito, muito, muito, muito bom para criar uma boutique e o pessoal te procurar porque você criou um nome. Até isso acontecer são anos de dedicação. E o investimento é muito alto. Depois, tem que ter alguém para captar clientes e outro para executar. Eu, por exemplo, me considero razoavelmente bom na atração de clientes. Mas tenho que ter na retaguarda alguém que execute muito bem o serviço.

Quais habilidades são necessárias para ser um bom captador?
Acho que isso é um dom com o qual você nasce ou não, mas, claro, que tem como aperfeiçoar. Para ser um bom promotor, você precisa gostar de se engajar com as pessoas. O segundo é ter disposição para procurá-las. Hoje, talvez, eu passo 40% do meu tempo viajando. Às vezes tenho a sensação de que alguns advogados pensam que eu fico passeando aí pelo mundo, o que é muito bom, mas é um trabalho duro também. Você fica longe da família, longe das pessoas mais próximas, com fuso horário, mas é importantíssimo ter esse contato com os clientes em potencial. Você nunca sabe quando eles vão dar o retorno. Depois de anos, o sujeito lembra de você. É preciso fazer o follow up, demonstrar interesse na indústria do sujeito. Quando o pessoal viaja, digo a eles que se estão sentados do lado de alguém no voo, devem procurar conversar. Quantos clientes já consegui de papo de avião! Você começa a conversar e dá o seu cartão. Mas você precisa gostar disso. Tem pessoas que não gostam. Para o escritório ser bem-sucedido, você tem que ter alguns advogados que promovam e muitos advogados que executem o trabalho com excelência. O velho Pinheiro gostava de desafiar o interlocutor. Certa vez, ele me disse: “Doutor Veirano, deve ser muito bom ser parte do Baker & McKenzie. O senhor não precisa fazer nenhuma promoção, eles lhe mandam os clientes numa bandeja de prata…” Ele gostava que você desse uma resposta, senão ficava irritado. Então, eu respondi: “Doutor Pinheiro, o senhor sabe muito bem que conseguir o cliente é uma coisa. Mantê-lo, é outra completamente diferente”. Não adianta ser bom em trazer, tem que ser bom na execução também. Hoje, 80% do meu tempo é captação e 20 a 30% é botar a mão na massa, principalmente na área de compra e venda de empresas, comercial e societário.

Qual foi a causa que mais lhe deu prazer em atuar em todos estes anos?
É difícil apontar uma determinada transação. A grande satisfação é ver que de alguma forma você está ajudando o país a se desenvolver: trazendo investimentos novos de fora, novas tecnologias, aproximando pessoas, aproximando governos. Tem uma série de transações comerciais, de compras e venda de empresas que trazem uma satisfação muito grande.

Qual foi o momento mais difícil pelo qual o escritório passou nestes anos?
Foi a separação do Baker & McKenzie. Eu tinha 25 anos de sociedade com eles. É como um divórcio. Costumo brincar que não tive coragem de me separar da minha mulher, mas tive do meu sócio. No dia seguinte da separação você não tem mais o apoio financeiro. Naquela época não tinha preocupação financeira nenhuma: se no final do mês não tivesse dinheiro para pagar secretária, aluguel, o que fosse, era só mandar um telex para os Estados Unidos. Depois da separação, eram as economias dos sócios que cobriam as despesas. A nossa sorte foi que ficamos com quase 90% dos clientes. Eram 25 pessoas no escritório, dos quais quatro ou cinco eram sócios. Outro susto que tomei foi que apesar de ter 56 anos e de ser um advogado bastante experiente, quando ia para o exterior tentar captar trabalhos, ninguém me conhecia. O Baker & McKenzie era tão grande que eu era conhecido dentro deste mundo interno. A concorrência não me conhecia. Foi um choque de realidade. Como cobrir essa diferença? Então me tornei membro da Internacional Bar Association, que é frequentada por escritórios grandes e médios, e comecei a me meter em comitês para conhecer o pessoal. Deu certo. As outras crises, que acho que lidamos com bastante tranquilidade, foram as separações. Uma bastante grande no Rio Grande do Sul foi quando vinte pessoas saíram para formar o Souto Correa. O Carlos Souto foi nosso sócio-gerente durante muito tempo e foi um baque grande quando se separou. Mas faz parte da vida.

Uma das áreas em que o senhor atua é a resolução de conflitos. As inovações do novo CPC sobre os métodos alternativos de fato modificaram o fazer Direito ou por enquanto elas ainda estão apenas no papel?
Estão mais no papel. A arbitragem cresceu concretamente, mas a mediação ainda está engatinhando. Há um pouco de falta de experiência. Aconteceu a mesma coisa com a arbitragem. Os juízes tinham alguma relutância e por enquanto ainda há um certo ceticismo em relação à mediação, mas acho que isso vai mudar. Nossos tribunais estão ficando sobrecarregados, as disputas estão demorando muito tempo para serem resolvidas. Temos que enfrentar isso.

O senhor tem quantos filhos? E quantos são advogados?
Tenho três. Um deles, o Ricardo, é advogado e é o sócio-gestor aqui. Não é nepotismo e vou lhe dizer o motivo. Primeiro, fui contra ele seguir a profissão porque acho que a advocacia é muito sacrificante em termos de tempo. Talvez pela minha má distribuição de tempo entre família e trabalho, eu tenha dedicado muito tempo ao escritório.

Esse é seu maior arrependimento?
Não é bem um arrependimento. Mas se eu pudesse voltar atrás, talvez dosasse isso um pouco melhor. Eu não vi meus filhos crescerem. Eles nunca reclamaram, mas devem ter uma certa mágoa por eu não ter dado tanta atenção. Tanto que eles hoje dão muito mais atenção a seus próprios filhos do que eu jamais dei para eles. Eu viajava muito e trabalhava muito. Trabalhava todo final de semana, sábado e domingo. Fui começar a trabalhar menos com 45, 46 anos, quando não trabalhava mais aos finais de semana. O Ricardo começou em outro escritório, fez mestrado nos Estados Unidos e quando voltou para o Brasil começou a ser entrevistado por outros escritórios. Aí, meus sócios começaram a brigar comigo. “Você não vai deixar seu filho trabalhar para concorrência. Ele tem todas as características que nós buscamos”, diziam. Eu não queria de jeito nenhum porque sabia que cobraria mais dele do que dos outros, o que não é justo. Então chegamos a um acordo: ele viria trabalhar em São Paulo e eu jamais supervisionaria ou avaliaria seu trabalho. Isso foi muito bom porque as outras pessoas perceberam que ele não tinha nenhum privilégio pelo fato de ser meu filho. No ano retrasado, me deu muita satisfação vê-lo ser eleito sócio-gestor do escritório. Cada sócio tem um voto, e eu não tenho veto, nada disso. A diferença entre o sócio que ganha mais e o que ganha menos aqui não chega a quatro vezes. Em outros escritórios, os múltiplos são de dez para mais vezes.

Como funciona a transição num escritório?
A minha grande preocupação há uns anos foi a institucionalização do escritório, para evitar o que vi acontecer muito no Rio de Janeiro e em São Paulo: escritórios que adquiriram certa proeminência no mercado e que com o falecimento ou aposentadoria do fundador acabaram desaparecendo. Então, eu como administrador passei isso para a geração mais jovem. Teve determinada época que eu mandava e desmandava, né. E você ir para uma reunião de sócios e o seu ponto de vista não prevalecer você tem que se educar – e não é fácil. Quando eu fiz essa transição, eu fiz questão de não interferir na administração do escritório. A cada quatro, cinco anos vai mudar o sócio-gestor por eleição dos sócios e a minha esperança é que o escritório perdure e continue oferecendo oportunidade a jovens talentosos. Tem uma série de pessoas que entraram aqui como estagiários e hoje são sócios. Isso dá uma satisfação muito grande. Eu recebi muita coisa de muita gente porque não tenho a menor condição de retribuir, mas me sinto na obrigação de criar essas oportunidades para outras pessoas.

Kalleo Coura - São Paulo

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