Justiça

O recado de Rodrigo Janot para Raquel Dodge

PGR recomenda vigilância redobrada com forças que tentam manter privilégios e tolher o MP
Márcio Falcão
Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil
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O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, recomendou a sua sucessora, Raquel Dodge, “vigilância redobrada” contra os “perigos que espreitam” o Ministério Público e disse esperar que a gestão dela mantenha a instituição “no caminho virtuoso da combatividade e da independência, de forma a preservar o íntegro o ethos institucional.” Segundo ele, há um movimento de forças que lutam para manter privilégios, cercear o MP e tolher o combate à corrupção.

Janot escreveu aos colegas na rede interna do MP na noite desta quinta-feira (13/7), após a indicação de Dodge ser aprovada pelo Senado e a nomeação ser publicada no Diário Oficial da União. O atual chefe do MP vinha evitando falar publicamente da escolha de Dodge, que fazia oposição a ele.

A celeridade na escolha da subprocuradora-geral da República em meio ao momento mais tenso entre a instituição e o Planalto pelo avanço das investigações de corrupção foi interpretada como uma tentativa de esvaziar Janot na reta final de seu mandato.

No texto, Janot afirmou que os desafios não serão pequenos e que disse que há um movimento contra o avanço do MP que está em “em clara rota de colisão com interesses tão escusos quanto poderosos. ”

“Essas forças, que de alguma forma se beneficiam do atual estado de corrupção endêmica, lutarão renhidamente para manter seus privilégios, ainda que isso represente cercear o trabalho do MP, tolher o combate à corrupção e solapar as possibilidades de desenvolvimento econômico e social do país”, disse.

Segundo o procurador-geral, o “trabalho sério, impessoal e eficaz de combate à corrupção, desenvolvido especialmente no âmbito da Lava Jato, realçou ainda mais a importância do Ministério Público para a sociedade brasileira, agregando-lhe prestígio”, mas também o colocou em batalha.

Janot ainda elogiou o fato de Temer ter escolhido um dos nomes da lista tríplice encaminhada pela Associação Nacional dos Procuradores da República à Presidência.

“O respeito à lista, mesmo em momento de tamanha turbulência política, é verdadeiramente uma razão para comemorar, pois o gesto revela a maturidade e o vigor de nossa democracia, além de sua capacidade de superar as questões contingenciais em nome de princípios e valores estruturantes para nossas instituições e, sobretudo, para o país.”

O procurador não fez referência ao fato de Dodge ter sido a segunda colocada na eleição interna da categoria, sendo que a tradição é pela indicação do primeiro colocado.

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LEIA A ÍNTEGRA DO TEXTO:

Em 17 de setembro, encerra-se meu mandato na chefia do MP e, naturalmente, os preparativos para a sucessão já se desenrolam dentro da mais absoluta institucionalidade.

Após submeter-se a um legítimo processo de seleção para a lista tríplice, a colega Raquel Dodge teve ontem [quarta] seu nome aprovado pelo Senado e foi nomeada pelo presidente da República para suceder-me.

A tradição de respeito à lista tríplice iniciou-se há quatorze anos, quando Claudio Fonteles foi nomeado pelo então presidente Lula para o cargo de procurador-geral da República. A prática reiterada ao longo desses anos por três diferentes presidentes concede a essa forma democrática de seleção do procurador-geral densidade política e jurídica que dificilmente será revertida ao estado anterior.

O respeito à lista, mesmo em momento de tamanha turbulência política, é verdadeiramente uma razão para comemorar, pois o gesto revela a maturidade e o vigor de nossa democracia, além de sua capacidade de superar as questões contingenciais em nome de princípios e valores estruturantes para nossas instituições e, sobretudo, para o país.

Parabenizo, assim, a colega Raquel Dodge pela merecida conquista. Espero que sua gestão seja exitosa, mantendo com a competência que lhe é peculiar, o MPF no caminho virtuoso da combatividade e da independência, de forma a preservar o íntegro o ethos institucional.

Os desafios do porvir não serão pequenos. Os perigos que nos espreitam também merecem redobrada vigilância. Se, por um lado, o trabalho sério, impessoal e eficaz de combate à corrupção, desenvolvido especialmente no âmbito da Lava Jato, realçou ainda mais a importância do Ministério Público para a sociedade brasileira, agregando-lhe prestígio, por outro, colocou-o em clara rota de colisão com interesses tão escusos quanto poderosos. Essas forças, que de alguma forma se beneficiam do atual estado de corrupção endêmica, lutarão renhidamente para manter seus privilégios, ainda que isso represente cercear o trabalho do MP, tolher o combate à corrupção e solapar as possibilidades de desenvolvimento econômico e social do país.

Registro que envidarei os esforços necessários para realizarmos uma transição dentro da mais absoluta transparência e profissionalismo.

Por fim parabenizo uma vez mais a colega Raquel Dodge, nossa primeira procuradora-geral da República.

Márcio Falcão - De Brasília

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