Justiça

Alta fatura para Cunha

Investigadores dizem que ex-deputado não deu sinais claros sobre disposição para delação
Márcio Falcão
Antonio Cruz/Agência Brasil
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Ele foi peça fundamental para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Foi afastado da presidência da Câmara e do mandato de deputado pelo Supremo Tribunal Federal, além de ter sido forçado a renunciar à vaga no Congresso. Acabou preso pelo juiz Sergio Moro na Lava Jato.

Protagonista desse roteiro, Eduardo Cunha é apontado também como um dos personagens centrais do esquema de corrupção na Petrobras e de seus braços, colecionando processos e ações penais nas Justiças do Rio, Paraná e Distrito Federal.

Considerado um dos principais nomes do PMDB, Cunha é cotado como um potencial delator, mas, no que depender do Ministério Público, uma eventual negociação terá contrapartidas rigorosas. Investigadores da Lava Jato sustentam que para o deputado fechar uma colaboração premiada terá que pagar uma “fatura alta”, ainda mais após os depoimentos prestados pelos executivos e ex-executivos da Odebrecht que já falaram muito sobre os caciques peemedebistas. Ele terá que entregar pessoas acima dele e, diante do perfil sistemático e organizativo, provas robustas dos fatos delatados.

Celebridade do toma lá, dá cá no Congresso, Cunha tinha uma espécie de bancada particular. Nomeava aliados para cargos na máquina federal, controlava comissões que ditam o ritmo do Congresso e definem os recortes nas medidas provisórias. Segundo investigadores, ele poderia indicar com detalhes práticas costumeiras nas negociações com empresários e governo.

Procuradores dizem que, apesar de ter enviado intermediários para sondar uma delação, Cunha não deu sinais reais ao Ministério Público de que estava disposto a revelar detalhes do esquema de corrupção e nem de assumir eventuais crimes. Os sinais do ex-deputado foram interpretados pelos investigadores como um jogo de cena para pressionar colegas e alertar que pode decidir contar o que sabe.

Para pessoas próximas às investigações, as tratativas para a delação de Cunha pode ganhar outro caminho, se o plenário do Supremo Tribunal Federal rejeitar seu pedido de liberdade. O caso está previsto para ser julgado no dia 8 de fevereiro.

De acordo com investigadores, havia uma articulação para tirar Cunha da prisão em julgamento na 2ª Turma do STF. Nos bastidores, eram esperados pelo menos três dos cincos votos do colegiado a favor da liberdade. Diante do risco de ter sua decisão que rejeitou a reclamação 25.509 reformada, Teori decidiu submeter ao plenário o caso.

O ex-deputado foi preso por determinação do juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância, no dia 19 de outubro. O argumento foi de que Cunha tinha risco de fugir ou tentar atrapalhar as investigações da Lava Jato.

A reclamação,  assinada pelos advogados Ticiano Figueiredo e Pedro Ivo Velloso,  chegou ao STF dois dias após a prisão de Cunha, alegando que a ordem de Moro desrespeitava decisão do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato, que havia arquivado outro pedido de prisão do peemedebista, feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.  Teori avaliou que o instrumento utilizado pela defesa para questionar a detenção não era adequado neste caso.

Os advogados sustentam que não há elementos jurídicos para justificar a manutenção da prisão, sendo que ele não tem cidadania italiana e dinheiro em contas no exterior porque esses fatos já haviam sido apontados pela Procuradoria Geral da República e nem assim o Supremo quis prendê-lo.

Márcio Falcão - Brasília

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