Jazz

Surrealismo inspira novo CD de Dave Douglas

As 10 peças de Dada People são interpretadas por um novo quarteto
Aa Aa

Em 1999, os críticos da revista JazzTimes elegeram “artista do ano” o trompetista-compositor Dave Douglas. Ele tinha então 36 anos e, logo em seguida, confirmaria a sua condição de um dos mais originais e criativos jazzmencontemporâneos com o álbum A Thousand Evenings (RCA) – exemplo admirável de um tipo de jazz composicional de temática surpreendente que dava o mesmo “peso” tanto a uma versão de Goldfinger quanto a uma suíte inspirada na música klezmer intitulada The Branches.

A partir de então, o prolífico músico acumulou registros sempre surpreendentes na sua etiqueta Greenleaf, como os do elétrico sexteto Keystone (2006-2010); do quinteto de metais de Spirit Moves (2009), com trompa, trombone, tuba e bateria; do grupo com Jon Irabagon (sax) e Linda Oh (baixo), que gravou Be Still e Time Travel (ambos de 2012). Vieram a seguir: um duo com o grande pianista Uri Caine (Present Joys, 2014); mais música eletrônica em High Risk(2015); e um “retorno” ao quinteto com Irabagon-Matt Mitchell-Oh-Rudy Royston em Brazen Heart (2015).

O imprevisível Douglas rides again, desta vez com um CD intitulado Dada People (Greenleaf), que tem na capa uma foto dos então moços Salvador Dali (1904-1989) e Man Ray (1890-1976), expoentes do surrealismo e do dadaísmo nas artes plásticas.

As 10 peças de Dada People são interpretadas por um novo quarteto formado pelo trompetista com o pianista alemão Frank Woeste (há muito radicado na França) mais os as notáveis Clarence Penn (bateria) e Matt Brewer (baixo).

Esse tributo a Man Ray e Dali não é, propriamente, uma música “surrealista” no sentido que se chegou a dar, no passado, a certas obras de Erik Satie (Parade) e Stravinsky (L’Histoire du Soldat). Ou, mais tarde, a composições de Varèse, John Cage e Morton Feldman. Mas realça muito aquela característica surpreendente do jazz, aquela magia da improvisação que mereceu de Whitney Balliet o livro The Sound of Surprise (1959).

Como comentou um reviwer, o novo álbum de Dave Douglas e seus três comparsas “é jazz que nos encanta por seu espectro sonoro, que passa com fluidez de acentuações mais experimentais a grooves ardentes, sempre com um ar de mistério convidativo e pura elegância”.

Mas as referências aos dadaístas estão explícitas ou implícitas em alguns títulos das peças assinadas tanto pelo trompetista como pelo pianista, e são destacadas nas notas de apresentação do CD. A faixa de abertura, Oedipe(6m15), de Douglas, é inspirada em Erik Satie; Mains libres (6m15), de Woeste, tem o mesmo título de um livro de poemas de Paul Eluard que foi ilustrado por Man Ray.

Lê-se ainda nas notas de Dada People: “O clima misterioso de Montparnasse (6m50), do pianista, evoca a musa de Man Ray, Alice Pin, também conhecida como a ‘Rainha de Montparnasse’. Já Transparent (6m55), de Douglas, entrelaça elegância e abstração de um modo que certamente agradaria aos dadaístas”.

Mas, na verdade, o disco do novo quarteto de Douglas pode ser degustado, com prazer, sem maiores referências à “arte moderna” daqueles 20 anos iniciais do Século XX. Dada People é mais um registro primoroso dessa arte da invenção ou da reinvenção que é o jazz, tal como concebido por um dos mais brilhantes trompetistas pós-Miles Davis.

A poética musical de Douglas parte, quase sempre, de suas próprias composições, cujas partes a serem improvisadas – livres dos grilhões da tonalidade convencional – são anotadas para orientar (ou prevenir) seus companheiros.

O seu principal comparsa no quarteto, Frank Woeste, 40 anos, é muito cotado (e premiado) na Europa como virtuose do teclado (grand piano e Fender Rhodes) e compositor. Seu último CD como líder, Pocket Rhapsody, em trio com Ben Monder (guitarra) e Justin Brown (bateria), foi lançado em janeiro deste ano pela etiqueta alemã ACT.

(Duas faixas de Dada People podem seu ouvidas : music.davedouglas.com/album/dada-people)

**Publicado originalmente pelo site Jornal do  Brasil

Luiz Orlando Carneiro - De Brasília

Aa Aa
COMENTÁRIOS

Comentários