Coluna da ABDE

A breve História das tribos de Econ e Law

Laws não conheciam a Matemática, embora fossem exímios usuários da língua nativa
Claudio D. Shikida
Pixabay
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Há muito tempo atrás, em uma imensa ilha tropical em meio a vasto oceano (High Brazil?) existiam duas tribos: os Econ e os Law[1]. Vestígios da vida que levavam as pessoas destas tribos foram encontrados e vários pesquisadores conseguiram reconstruir alguns dos aspectos de sua exótica vida cotidiana.

Um achado notável, por exemplo, por meio de escavações na conhecida região da ilha chamada de Academus, descobriu-se uma característica bastante comum entre ambas as tribos: o obsessivo uso de roupas formais (como o tradicional terno, entre os membros masculinos das tribos, por exemplo). Vários pesquisadores ainda tentam entender o motivo do uso de roupas tão inadequadas ao clima tropical por parte dos membros destas tribos mas, para a sorte do leitor, esta especulação não será alvo de devaneios aqui.

Fragmentos de documentos encontrados em outro sítio arqueológico, Beckerius, mostram que, inicialmente, Laws não conheciam a Matemática, embora fossem exímios usuários da língua nativa. Curiosamente, os Econ eram o exato oposto. Documentos mostram uma prevalência incomum de álgebra e símbolos matemáticos em detrimento da citada língua[2]. Alguns dizem que estes achados demonstram a existência de uma tendência a um certo hermetismo entre as tribos, motivo pelo qual o período associado a estes achados é conhecido como era hermética (ou hermenêutica).

Adam Smith, reconhecido como pai da Ciência Econômica, talvez dissesse que esta tenha sido uma fase inicial de especialização de cada tribo (cada qual vivendo em autarquia), à qual seria sucedida pela fase de comércio, ou seja, de trocas entre as tribos[3]. Em estágios iniciais como este, como se sabe, é inevitável algum grau de rivalidade entre grupos distintos. Fragmentos de papiros traduzidos – com muito custo – parecem mostrar o que seriam “piadas” entre os Econs sobre os Laws e vice-versa. Ironicamente, ambas tiveram seu poder humorístico mensurado por diversos especialistas na área e o sucesso das piadas parecem ter alcançado níveis bem baixos.  Talvez, especula-se, esta fosse uma característica comum das tribos: a falta de (bom) humor.

Em algum momento da história desta ilha, contudo, as tribos fizeram o que a teoria de Adam Smith prevê e iniciaram uma fase de trocas. Naquela fase, existiam custos elevados para as trocas (ou transações, termo usado por Econs e Laws na chamada era Coase), dada a ausência quase total de uma linguagem unificadora. Laws acusavam Econs de serem arrogantes e hipossuficientes no conhecimento da linguagem não-matemática e Econs acusavam Laws de serem herméticos no uso desta, além de não entenderem o destino de sua principal mercadoria, os chamados modelos.

Da era hermética à era Coase passaram-se alguns anos, e a postura agressiva inicial das tribos caiu lentamente, a partir do desenvolvimento da linguagem comum (percebe-se, pois, que mesmo esta não existe como um almoço grátis: tem custos e, muitas vezes, custam a amizade de alguns). Os Econs e os Laws desenvolveram uma próspera sociedade de trocas. Alguns pesquisadores chamam este processo de amalgamento social de transição do dilema dos prisioneiros jogado repetidamente, por motivos que não cabem aqui explicar[4].

Neste processo de – acredita-se – contínua cooperação (não sempre sem conflitos ocasionais, mas cada vez menos importantes, entre alguns Econs e Laws), as trocas geraram sofisticação no grau de conhecimento de ambos. Escavações mostram que o uso dos termos EconLaw ou LawEcon parece ter substituído os anteriores, numa aparente demonstração de sinergia positiva entre as tribos.

A sobrevivência dos EconLaw foi construída sobre sólida base: a manutenção dos custos de transação sempre em níveis bem baixos. Tal feito – admirável! – parece ter sido possível pela ação coletiva de alguns membros das duas tribos que criaram uma espécie de associação voltada para a manutenção duradoura destas trocas.

Não é um exemplo notável, este da história entre os Econ e os Law, ou melhor, dos EconLaw (LawEcon)?

 

* Em homenagem aos dez anos da ABDE. Busquei evitar que o texto tivesse um custo muito elevado (em termos de monotonia) ao leitor, para não lhe causar danos (em termos de satisfação). Espero não ser culpado segundo o princípio de Learned Hand.

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[1] Inspirado no clássico – e divertido – artigo de Leijonhufvud: LEIJONHUFVUD, A. Life Among the Econ. Western Economic Journal, v. 11, n. 3, p. 327–337, 1973.

[2] Estudiosos afirmam que alguns Econs acreditavam ser a Matemática a língua principal para a comunicação, embora isso não fosse consenso entre eles. Aparentemente, existiam, entre eles, três formas de comunicação: algébrica, gráfica e a língua nativa (esta, como dito, comungada com a tribo de Law). As evidências mostram que, inicialmente, os Econs pareciam muito mais interessados em debater sobre a beleza relativa da álgebra sobre os gráficos e vice-versa, e não se importavam muito com a língua nativa.

[3] Para economistas, autarquia é sinônimo de uma economia/sociedade fechada, ou seja, que não faz trocas com outras economias/sociedades.

[4] Um resultado interessante em Teoria dos Jogos é que o jogo conhecido como dilema dos prisioneiros, quando jogado repetidamente, pelos mesmos participantes, pode levar à cooperação entre ambos. Este é um tópico conhecido desde, pelo menos, os estudos de Axelrod. A referência clássica é esta: http://science.sciencemag.org/content/211/4489/1390.

 

Claudio D. Shikida - Pesquisador do PPGOM-UFPel e membro da ABDE

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