Carreira

Os YouTubers do Direito

Embora ainda não seja viável como carreira exclusiva, um canal de vídeos pode abrir muitas portas
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O delegado de Polícia Civil do Rio de Janeiro Sandro Caldeira reserva pelo menos três horas de sua semana para se colocar diante de uma câmera.

Ele faz isso não para divulgar o resultado de uma investigação, mas para discutir questões relacionadas ao Direito Penal, dar dicas de estilo, ensinar receitas saudáveis e até cantar. Além de delegado e professor, Caldeira é também um YouTuber do Direito.

“A minha intenção ao montar o canal foi dar um suporte gratuito para todas as pessoas que estão estudando para concurso. Tento passar a ideia de que além de sentar na cadeira e estudar, o candidato também tem que ter uma boa alimentação e fazer uma atividade física”, afirma Caldeira, que atua na assessoria jurídica da cúpula da polícia fluminense.

Caldeira diz não ganhar dinheiro diretamente com o canal, mas o vê como uma ferramenta para abrir portas. “É uma vitrine, fico muito mais conhecido no Brasil inteiro, o que possibilita mais convites para dar aulas”, diz o delegado, que gravou uma versão de Tremendo Vacilão com a cantora Perlla, responsável pelo hit original.

“Antes costumava viajar apenas um final de semana ao mês para dar palestras. Depois do canal, passei a viajar para dar aulão-show ou palestra todos os finais de semana”.

Tentativa de financiamento

Outro profissional de carreira pública que se aventurou no YouTube é o defensor público do Mato Grosso do Sul Rodrigo Bin Alvarez, criador do canal Desenhando Direito, com 46,5 mil inscritos.

Alvarez diz ter começado o canal em 2012 porque sempre teve vontade de dar aulas, mas não estava conseguindo conciliar a atividade de defensor público com a de professor. “Pesquisei muito e vi que o método inspirado nas aulas do Khan Academy e percebi é o mais eficaz porque tira toda a distração”, afirma.

Ele chegou a lançar um canal exclusivo de aulas focadas no exame da OAB em que cobraria uma assinatura mensal de R$ 9,90 ou anual de R$ 87,90, mas a ideia não foi para frente. “Percebi que os usuários são refratários a pagar por algo no YouTube”, afirma. “O canal não me traz rendimentos, nunca mexi no dinheiro dos anúncios, mas já fui convidado para palestras e dar aula em cursinhos profissionais por causa dele”.

É uma opção de carreira?

Na visão do advogado corporativo João Raphael Imperato, do canal Direito em 60’’, com 27.300 inscritos, o YouTube paga pouco para os produtores de conteúdo.

“Quem vive somente de seu canal ganha dinheiro mesmo com patrocínio de produtos. Acontece que no ramo do Direito você fica muito limitado em relação a isso”, afirma.

Estima-se que o site pague entre US$ 0,60 e US$ 5 a cada mil views, mas, segundo o advogado, o rendimento dos anúncios, sem contar patrocínios, se torna realmente bom apenas para quem tem de 500 mil a 1 milhão de inscritos.

“Esta quantidade de inscritos para o nicho do Direito é bem utópica. Acho que a renda teria que ser complementada com outra atividade”, diz Imperato, cujo canal já é monetizado e representa 10% de seus rendimentos.

O defensor público Rodrigo Alvarez concorda. “Uma aula não vai ser tão visitada como um tutorial de maquiagem ou um vídeo de personal lifestyle como os do Felipe Neto. Para um jovem apostar apenas nisso, teria que trabalhar com um conteúdo muito interessante e relevante para ter muita visualização”.

O delegado Sandro Caldeira é mais otimista. Dados do próprio YouTube, revelados pela Folha de S.Paulo, mostram que o tempo médio gasto por brasileiros assistindo a vídeos online duplicou nos últimos dois anos, de oito horas por semana para dezesseis horas por semana.

“Não é um público restrito. Muitos concursos exigem conhecimentos jurídicos, mas não a formação em Direito. Tem um leque enorme de uma potencial audiência aí”, afirma Caldeira.

Kalleo Coura - São Paulo

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